Baiacu e tetrodotoxina no ENEM: neurotoxina, impulso nervoso e questão resolvida

O baiacu é conhecido tanto pelo uso culinário quanto pelo risco de intoxicação associado à tetrodotoxina. Essa neurotoxina atua sobre canais de sódio dependentes de voltagem, proteínas da membrana que participam da propagação do impulso nervoso. Quando esses canais são bloqueados, a entrada de sódio nas células nervosas fica prejudicada, e a comunicação elétrica necessária para a atividade muscular pode falhar.

A questão relaciona o preparo do baiacu ao risco de contato com partes do animal que podem concentrar a toxina. Para compreender o problema, considerar dois aspectos: a tetrodotoxina pode estar associada a órgãos internos do peixe e sua ação compromete a condução nervosa. Essa relação ajuda a explicar por que a intoxicação pode atingir a musculatura respiratória e causar desfechos graves.

ENEM
FISIOLOGIA
2025
Caderno: Amarelo
Questão: 98

Questão

Comentários

A intoxicação por baiacu envolve uma toxina natural capaz de bloquear a comunicação elétrica entre neurônios e músculos. A substância envolvida é a tetrodotoxina, também conhecida como TTX, uma neurotoxina que interfere na condução do impulso nervoso. Essa condução depende de pequenas variações elétricas na membrana dos neurônios. Quando tais variações não ocorrem de modo adequado, os sinais nervosos deixam de chegar corretamente aos músculos, inclusive aos músculos envolvidos na respiração.

Nos baiacus, a tetrodotoxina pode estar associada a partes como fígado, gônadas, pele, olhos e vísceras. A concentração da toxina não é igual em todo o corpo do peixe, nem segue sempre o mesmo padrão entre espécies e indivíduos. O risco depende, portanto, de onde a toxina se concentra no animal e de como as partes potencialmente tóxicas se relacionam com a porção que será consumida.

Esquema didático sobre baiacu e tetrodotoxina, mostrando a morfologia do peixe, órgãos mais tóxicos, bloqueio dos canais de Na⁺ e efeitos da intoxicação no organismo.
Figura 1. Baiacu, tetrodotoxina e toxicidade

Na Figura 1, a distribuição anatômica da tetrodotoxina mostra que o baiacu não deve ser tratado como se apresentasse a mesma toxicidade em todas as regiões do corpo. Estruturas internas, gônadas, pele e outras partes podem ter maior importância toxicológica. A figura também permite verificar que a TTX bloqueia canais de Na⁺ na membrana de células nervosas, prejudica a condução do impulso e pode comprometer a contração muscular.

A termoestabilidade da tetrodotoxina também precisa ser considerada. Uma substância termoestável mantém sua atividade mesmo após exposição ao calor em condições comuns de preparo. Em muitas situações alimentares, o aquecimento reduz o risco porque destrói microrganismos ou inativa moléculas sensíveis à temperatura. Com a TTX, a situação é diferente. O calor do cozimento comum não deve ser tratado como forma confiável de neutralizar a toxina.

A tetrodotoxina pode afetar a respiração porque a contração dos músculos respiratórios depende de impulsos conduzidos por neurônios. Neurônios são células especializadas em receber, processar e transmitir informações. O impulso nervoso percorre principalmente o axônio, uma extensão celular que conduz sinais para outras células, como neurônios, células glandulares ou fibras musculares.

O impulso nervoso corresponde a uma alteração elétrica que se propaga pela membrana celular. Essa alteração depende do movimento controlado de íons, principalmente sódio (Na⁺) e potássio (K⁺). Íons são partículas com carga elétrica. Como a membrana separa os meios intra e extracelular, diferenças na distribuição desses íons geram uma diferença de voltagem entre os dois lados da membrana.

Esquema da condução do impulso nervoso no neurônio, com despolarização por entrada de Na⁺, repolarização por saída de K⁺ e propagação pelo axônio.
Figura 2. Condução do impulso nervoso ao longo do neurônio

Como ilustra a Figura 2, a mudança elétrica não ocorre de uma só vez em toda a membrana do axônio. Como ilustra a Figura 2, a mudança elétrica não ocorre de uma só vez em toda a membrana do axônio. Assim, o impulso nervoso avança porque a membrana passa por modificações sucessivas ao longo do axônio. Em axônios mielinizados, a bainha de mielina reduz a perda de corrente através da membrana, e o potencial de ação ocorre principalmente nos nódulos de Ranvier, regiões onde há maior concentração de canais iônicos.

Durante o repouso, o neurônio mantém uma diferença de voltagem entre o interior e o exterior da célula. Esse estado recebe o nome de potencial de repouso. Em muitos neurônios, o valor fica próximo de −70 mV. O sinal negativo indica que o interior da célula é eletricamente mais negativo em relação ao meio extracelular. Essa diferença resulta da distribuição desigual de íons, da permeabilidade seletiva da membrana e da atividade de proteínas que mantêm os gradientes iônicos ao longo do tempo.

O termo gradiente indica uma diferença de concentração entre duas regiões. No neurônio, há mais Na⁺ no meio extracelular e mais K⁺ no meio intracelular. Essa separação cria uma condição em que os íons tendem a se mover quando canais específicos se abrem. A membrana, portanto, não é uma barreira passiva. Ela contém canais, bombas e transportadores que regulam a passagem de substâncias.

Esquema comparando membrana polarizada em repouso e despolarização local durante a condução do impulso nervoso, com potencial de repouso, entrada de Na⁺ e propagação pelo axônio.
Figura 3. Membrana polarizada e despolarização local durante a condução do impulso nervoso

A Figura 3 separa dois momentos do mesmo processo: a membrana polarizada, própria do repouso, e a despolarização local, associada à condução do impulso. Quando a membrana está polarizada, existe uma diferença de cargas entre seus dois lados. O meio intracelular fica relativamente mais negativo que o meio extracelular. Esse é o estado típico do potencial de repouso, próximo de −70 mV. A membrana não está inativa. Mesmo em repouso, ela mantém uma diferença elétrica organizada e pode responder a um estímulo adequado.

Durante a despolarização local, a diferença elétrica diminui em um pequeno segmento da membrana. Canais de Na⁺ dependentes de voltagem se abrem, e o Na⁺ entra no neurônio. A entrada de cargas positivas torna o interior da membrana menos negativo e pode torná-lo positivo por um breve intervalo. Quando a despolarização atinge o limiar, inicia-se o potencial de ação, uma variação rápida do potencial de membrana que permite a propagação do impulso nervoso.

Membrana polarizada e despolarização local são momentos diferentes da atividade elétrica do neurônio. O neurônio inteiro não despolariza de uma só vez. A condução ocorre quando segmentos sucessivos da membrana passam por despolarização, recuperação e retorno ao repouso ao longo do axônio. A despolarização local transforma uma alteração elétrica restrita em um sinal capaz de avançar pela célula nervosa.

Para que um potencial de ação comece, a membrana precisa atingir um valor chamado limiar. O limiar costuma ser representado em torno de −55 mV, embora possa variar conforme o tipo celular e as condições fisiológicas. Quando esse valor é alcançado, a despolarização inicial já foi suficiente para abrir muitos canais de Na⁺ dependentes de voltagem. Esses canais são proteínas que mudam de conformação quando a voltagem da membrana se altera.

Com a abertura dos canais de Na⁺, o sódio entra rapidamente na célula. A entrada desse íon torna o interior da membrana menos negativo e produz a fase ascendente do potencial de ação. Depois, o retorno a valores negativos depende principalmente da saída de K⁺ por canais de potássio dependentes de voltagem. A repolarização, portanto, não corresponde a uma simples reversão da despolarização. Cada fase do potencial de ação depende de mudanças específicas na permeabilidade da membrana.

Gráfico do potencial de repouso e do potencial de ação ao longo do tempo, mostrando limiar, despolarização, pico, repolarização, hiperpolarização e retorno ao repouso.
Figura 4. Potencial de repouso e potencial de ação ao longo do tempo

No gráfico da Figura 4, a curva representa a variação do potencial de membrana durante um potencial de ação. No início, a membrana está em repouso, com valor próximo de −70 mV. Quando um estímulo leva a membrana ao limiar, em torno de −55 mV, ocorre uma mudança rápida: canais de Na⁺ dependentes de voltagem permitem a entrada de sódio, e o interior da célula fica menos negativo. Essa subida corresponde à despolarização.

No pico do potencial de ação, o interior da célula atinge valores positivos em relação ao exterior. Em seguida, ocorre a repolarização, associada principalmente à saída de K⁺. Nessa fase, o potencial de membrana retorna progressivamente a valores negativos. Depois, pode ocorrer hiperpolarização, quando a voltagem fica por breve intervalo abaixo do valor de repouso, antes de retornar a uma condição estável.

A tetrodotoxina interfere justamente na etapa dependente da entrada de Na⁺. Ao bloquear canais de Na⁺ dependentes de voltagem, a TTX impede que o sódio entre em quantidade suficiente para sustentar a despolarização. Sem essa entrada de cargas positivas, o potencial de ação pode não se formar normalmente ou pode deixar de se propagar ao longo do axônio.

A falha na condução nervosa afeta diretamente a contração muscular. Para um músculo contrair, neurônios motores precisam conduzir impulsos até as fibras musculares. Em intoxicações graves por tetrodotoxina, os músculos envolvidos na ventilação pulmonar podem deixar de receber comandos adequados. A pessoa pode permanecer consciente, mas apresentar fraqueza progressiva, dificuldade para se mover e dificuldade para respirar. O risco mais grave é a paralisia respiratória, que pode levar à asfixia sem suporte adequado.

Resolução

A questão informa que o baiacu contém tetrodotoxina, uma neurotoxina potente, termoestável e associada às gônadas e vísceras do animal. A presença da toxina em órgãos internos muda a forma de interpretar o risco. O problema não está apenas no consumo de peixe cru, nem pode ser resolvido simplesmente pelo aquecimento. O risco maior aparece quando a parte consumida entra em contato com estruturas capazes de concentrar a toxina.

Por isso, a ação preventiva precisa impedir que a tetrodotoxina alcance o filé. Como gônadas e vísceras podem armazenar a neurotoxina, o rompimento desses órgãos durante o preparo aumenta a chance de contaminação da porção destinada ao consumo. Nesse contexto, não basta pensar em cozimento, higiene geral ou método de pesca. O cuidado mais diretamente relacionado ao problema é evitar que o conteúdo dos órgãos internos entre em contato com o alimento.

A alternativa A afirma que criar os peixes em cativeiro poderia evitar a intoxicação. A toxicidade de baiacus pode variar conforme espécie, dieta, ambiente e condições de criação. Ainda assim, a alternativa não responde ao caso apresentado. A questão descreve um peixe que contém tetrodotoxina armazenada em gônadas e vísceras. Para a situação proposta, a prevenção depende do preparo cuidadoso do animal e da separação entre órgãos tóxicos e parte comestível.

A alternativa B propõe realizar a pesca com redes. O método de captura não interfere no mecanismo descrito. A tetrodotoxina não surge por causa da pesca, nem deixa de estar presente quando o peixe é capturado de uma determinada maneira. Portanto, a rede não elimina o risco toxicológico indicado na questão.

A alternativa C sugere consumir peixes cozidos ou fritos. A própria questão informa que a tetrodotoxina é termoestável. Como o aquecimento comum não deve ser tratado como forma segura de neutralização da TTX, cozinhar ou fritar o peixe não resolve o problema apresentado.

A alternativa D menciona o preparo em condições adequadas de higiene. A higiene é necessária em qualquer manipulação de alimentos, mas não neutraliza uma neurotoxina presente em órgãos do próprio animal. Limpeza, cuidado sanitário e controle microbiológico reduzem outros riscos alimentares. No caso da tetrodotoxina, o problema permanece se a toxina alcançar o filé durante o manuseio.

A alternativa E é a única que corresponde ao mecanismo biológico envolvido. Se a tetrodotoxina está associada às gônadas e às vísceras, o preparo deve evitar o rompimento desses órgãos. Ao manter as estruturas internas íntegras durante o manuseio, reduz-se o risco de a toxina contaminar a parte consumida. Por isso, a resposta correta é a alternativa E.

Gabarito
E

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Quando a leitura biológica se torna mais precisa, a questão deixa de parecer um conjunto de alternativas parecidas e passa a revelar com mais nitidez o mecanismo que sustenta a resposta. É esse tipo de compreensão que o Aprendendo Biologia procura desenvolver: uma leitura clara, didática e rigorosa, capaz de transformar a resolução de uma questão em aprendizado reaproveitável.

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