ENEM
BIOTECNOLOGIA
2019
Caderno: amarelo (2ª aplic.)
Questão: 130

Embora a terapia gênica chame atenção pela possibilidade de utilizar material genético funcional para reduzir os efeitos de doenças genéticas, a resolução da questão depende, antes de tudo, da compreensão do processo envolvido. O que importa aqui é acompanhar a sequência biológica descrita. A retirada das células, a introdução do gene terapêutico e a posterior reinfusão no organismo formam a lógica que permite chegar à resposta correta.

Questão

A sequência de etapas indicadas na figura representa o processo conhecido como

A) mutação.

B) clonagem.

C) crossing-over.

D) terapia gênica.

E) transformação genética.

Comentários

A imunodeficiência combinada severa (SCID) é uma doença resultante de mutações no gene responsável por codificar a enzima adenosina desaminase (ADA).
Sem atividade adequada da ADA, substâncias tóxicas se acumulam e prejudicam principalmente a sobrevivência e o funcionamento dos linfócitos.

Como consequência, a resposta imune fica severamente enfraquecida. Crianças com essa condição tornam-se extremamente vulneráveis a infecções que, em indivíduos imunologicamente saudáveis, costumam ser controladas sem grande dificuldade. Em quadros mais graves, a necessidade de isolamento rigoroso levou à popularização da expressão “bebê-bolha”.

Um dos casos mais conhecidos foi o de David Vetter, que viveu nos Estados Unidos sob condições rigorosas de isolamento por causa da SCID. Esse caso se tornou emblemático porque mostrou, de forma dramática, o impacto biológico e humano de uma imunodeficiência grave causada por alteração genética.

O “menino da bolha” David Vetter, diagnosticado com SCID nos Estados Unidos nos anos 1970. Clique na imagem para ampliar.

Outra história marcante ligada à SCID por deficiência de ADA foi a de Ashanti De Silva. Diagnosticada ainda na infância, ela recebeu um tratamento que se tornaria um marco na história da terapia gênica. A proposta era simples na ideia, embora complexa na execução: retirar células do próprio paciente, introduzir nelas uma cópia funcional do gene envolvido e depois devolvê-las ao organismo.

No caso de Ashanti, linfócitos T foram coletados a partir do sangue e cultivados em laboratório. Durante esse processo, essas células receberam uma cópia funcional do gene da ADA. Em seguida, as células modificadas foram reinfundidas no organismo da paciente. O objetivo não era “trocar” perfeitamente o gene alterado em todas as células do corpo, mas fornecer células capazes de expressar a enzima e, assim, melhorar a resposta imune.

Para que o gene funcional chegasse ao interior das células, foi necessário utilizar um vetor. Nesse contexto, o vetor é o agente que transporta o material genético até a célula-alvo. Na terapia gênica clássica para SCID, esse papel foi desempenhado por vírus previamente modificados para perder a capacidade de causar doença e passar a funcionar como veículos de entrega do gene terapêutico.

A lógica do procedimento aparece na figura: primeiro, os linfócitos T do paciente são retirados; depois, recebem o gene funcional com auxílio do vetor viral; por fim, as células modificadas são cultivadas e reinfundidas. A imagem resume bem a sequência biológica envolvida no tratamento.

Esquema do processo de terapia gênica ex vivo para SCID, mostrando coleta de linfócitos T do paciente, clonagem do gene terapêutico, uso de vetor viral para inserção do gene funcional, cultivo das células modificadas e reinfusão no organismo.
Visão geral de um procedimento de terapia gênica. Clique na imagem para ampliar.

O impacto da terapia gênica foi muito positivo. Após seis meses, a quantidade de linfócitos T no sangue de Ashanti atingiu níveis normais. Nos dois anos seguintes, seu estado de saúde continuou melhorando, o que permitiu que ela frequentasse a escola e levasse uma infância muito mais próxima da normalidade do que seria esperado para uma criança com SCID não tratada.

Ashanti De Silva não foi completamente curada da SCID. Ainda hoje, recebe baixas doses de ADA. Em princípio, talvez pudesse viver sem essa suplementação, mas os médicos consideram mais prudente manter esse suporte.

A terapia gênica, embora tenha mostrado resultados importantes em pacientes com SCID, ainda não se tornou um procedimento de uso rotineiro para todos os casos e todas as doenças. A técnica ainda exige aperfeiçoamentos e mais pesquisa. No caso do câncer, por exemplo, a situação é muito mais complexa, porque o desenvolvimento tumoral pode envolver várias etapas e alterações em diferentes genes. Por isso, não se trata de uma condição que possa ser resolvida, de forma geral, pela simples introdução de um único gene funcional.

Resolução

A terapia gênica corresponde ao procedimento em que um gene funcional é introduzido nas células de um indivíduo com a finalidade de reduzir os efeitos de uma alteração genética associada a determinada doença.

A figura apresentada pela questão mostra uma sequência de etapas em que células de um indivíduo doente foram retiradas e cultivadas (1). Em seguida, essas células receberam o gene funcional, isto é, o gene terapêutico, por meio de um vírus que atuou como vetor (2). As células que passaram a portar esse gene foram então selecionadas e novamente cultivadas (3). Por fim, essas células geneticamente modificadas foram reintroduzidas no organismo do paciente, com a finalidade de melhorar o quadro clínico associado à doença.

A sequência mostrada pela figura corresponde, portanto, ao procedimento denominado terapia gênica. Por essa razão, a alternativa correta é a D.

Gabarito
D

Perguntas frequentes

Terapia gênica e transgenia são a mesma coisa?

Não. Na terapia gênica, a introdução de material genético funcional tem finalidade terapêutica, isto é, busca reduzir os efeitos de uma doença. Já a transgenia envolve a produção de organismos que passam a carregar genes de outra origem, geralmente com finalidade biotecnológica, agrícola ou experimental.

O vetor viral usado na terapia gênica provoca doença no paciente?

Não é essa a finalidade. Nesse tipo de procedimento, o vírus é previamente modificado para atuar como vetor, ou seja, como veículo de entrega do gene terapêutico às células-alvo. O interesse biotecnológico está justamente em aproveitar sua capacidade de introduzir material genético nas células.

Na terapia gênica, o gene alterado precisa ser retirado para o tratamento funcionar?

Não necessariamente. Em muitos casos, o tratamento consiste em introduzir uma cópia funcional do gene de interesse nas células do paciente. O efeito esperado vem da expressão desse gene funcional, e não obrigatoriamente da remoção do gene alterado original.

O que significa dizer que o procedimento é ex vivo?

Significa que as células são retiradas do organismo e manipuladas fora do corpo, em ambiente laboratorial. Depois de receberem o gene terapêutico e serem selecionadas, essas células são devolvidas ao paciente. Foi exatamente essa lógica que apareceu na questão.

Por que a SCID ficou tão associada à história da terapia gênica?

Porque a SCID por deficiência de ADA se tornou um dos exemplos mais conhecidos de aplicação clínica dessa estratégia. O caso ganhou destaque por mostrar, de forma concreta, que a introdução de um gene funcional em células do paciente podia melhorar de maneira importante um quadro de imunodeficiência grave.

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Atualizado em: abril de 2026.

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